Objetivos das Parábolas no Ensino de Jesus

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Esdras Bentho



Um dos principais objetivos da parábola é provocar a imaginação e a consciência do ouvinte de tal forma que ele se identifique com os personagens da narrativa.
Uma das dificuldades de se entender o propósito e a mensagem das parábolas, em minha opinião, é o fato de os leitores modernos tentarem compreendê-las fora de seu contexto e ambiente hebraico.
Assim, a parábola, como usada por Jesus, era mais um dos vastos recursos do gênio hebreu que preferia o pictórico em vez do conceito, o concreto no lugar do abstrato. Dodd entende que para interpretar algumas dessas parábolas é necessário compreender o Sitz im Liben (situação da vida) de onde se formou a tradição subjacente à parábola. Por conseguinte, as parábolas eram recursos didáticos usados pelos judeus desde os tempos do Antigo Testamento (Jó 27.1; Hc 2.6) relacionadas ao seu contexto existencial. 
Um dos principais objetivos da parábola é provocar a imaginação e a consciência do ouvinte de tal forma que ele se identifique com os personagens da narrativa. Ao ouvir a parábola ele deve responder à mensagem oculta nas imagens verbais e se identificar com os actantes da história. Contudo, seguindo as linhas mestras dos Sinópticos, Jesus esclarece as razões pelas quais ensina por meio de parábolas:
Porque a vós é dado conhecer os mistérios do Reino dos céus, mas a eles não lhes é dado; porque àquele que tem se dará, e terá em abundância; mas aquele que não tem, até aquilo que tem lhe será tirado. Por isso, lhes falo por parábolas, porque eles, vendo, não veem; e, ouvindo, não ouvem, nem compreendem. E neles se cumpre a profecia de Isaías: […] (Mt 13.11-14a; cf. Mc 4.10-13; Lc 8.9,10).
Naturalmente, não é possível discorrer a respeito de todos os elementos envolvidos neste texto. O ritmo, a cadência, a ênfase e o paralelismo poético são patentes, e as análises desses itens fogem ao objetivo aqui desejado. Porém, não podemos seguir adiante sem antes afirmar que os evangelistas sinópticos consideram o método parabólico usado por Jesus como cumprimento das profecias do Antigo Testamento. Há um propósito pelo qual Cristo emprega as parábolas: porque (hoti) eles, vendo, não veem” (Mt 13.13); ou “para que (hina), vendo, vejam e não percebam” (Mc 4.12; Lc 8.10). Marcos usa para que (hina), mostrando a finalidade da parábola e a indisposição do público, enquanto Mateus emprega porque (hoti) para acentuar a causa da cegueira e a livre disposição da multidão para rejeitar ou aceitar a mensagem do Reino de Deus. Tanto Kümmel quanto Shelton atentaram para o fato de que Mateus procura omitir as palavras ácidas de Marcos, como encontramos aqui.
Todavia, vejamos que os elementos essenciais do texto formam uma estrofe alternada (ABAB) contendo necessariamente quatro linhas poéticas (quarteto): 
(A) porque a vós é dado conhecer os mistérios do Reino dos céus,
(B) mas a eles não lhes é dado.
(A) porque àquele que tem se dará, e terá em abundância;
(B) mas aquele que não tem, até aquilo que tem lhe será tirado.
Cabe aqui informar que dois grupos são facilmente distinguidos: dos discípulos (AA), e da multidão frívola – inclusive os líderes judeus (BB). Ao primeiro grupo se dirigem às referências positivas, enquanto ao segundo, às negativas. A estrutura antitética do texto reforça essa característica. Aos discípulos, possibilitados pelo estilo didático das parábolas e por sua disposição obediente, é concedido o conhecimento dos mistérios do Reino de Deus, enquanto para os fariseus e a multidão, a mesma ilustração que serve de luz aos discípulos, serve-lhes de trevas.
Não é muito difícil entender a principal razão pela qual o segundo grupo não compreende as parábolas: Eles não têm disposição obediente e contrita para ouvir e aceitar com fé e arrependimento genuíno a mensagem de Jesus. Eles esperavam que Cristo falasse do Reino de Deus com ações exteriores, mas para decepção do cortejo, foi acentuado a adesão ao Reino por meio de uma disposição interior. Isto se explica pelo contexto imediato e, depois, pela primeira parábola de Mateus 13. Essas parábolas surgem em função da oposição dos fariseus e da hostilidade de alguns da multidão contra o ministério de Jesus e a mensagem do Reino de Deus (Mt 11; 13. 53-14.2; Mc 6.1-6, 14-29; Lc 9.7-9). 
A primeira parábola do grupo, isto é, das sete mencionadas em Mateus 13, acusa silenciosamente a multidão, cujo coração e disposição para atender a mensagem do Reino são comparados a solos nos quais a semente (a Palavra do Reino) não frutifica. Somente uma pequena parte “frutifica” em razão de ser boa terra (v.23). As parábolas, portanto, se propunham a revelar os mistérios do Reino de Deus aos contritos e humildes e a ocultar as mesmas verdades da multidão insensível à mensagem. Para entendê-las era necessário reconhecer a Jesus como o Messias e que a sua mensagem revelava o Reino de Deus.
Por conseguinte, Jesus empregou as parábolas com, pelo menos, dois objetivos principais: didático e teológico. No primeiro, assumia uma função semelhante a dos sábios do Antigo Testamento, e, no segundo, a do intérprete do Reino de Deus. Esta distinção deve ser entendida apenas didaticamente. 

Fonte: http://www.cpadnews.com.br/blog/esdrasbentho/

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