O que é ser um sacerdote, hoje?

Marido, sacerdote do lar? Sacerdote na Igreja?

No segundo século d.C. houve um herege chamado Marcião, que — influenciado por conceitos dualistas e gnósticos — começou a propagar a ideia de que os cristãos deveriam desprezar o Antigo Testamento. Para ele, as Escrituras cristãs só podiam incluir o Evangelho de Lucas e as Epístolas Paulinas, exceto as pastorais (1 e 2 Timóteo e Tito). Os marcionitas formaram uma igreja que não durou muitos séculos, mas o espírito marcionista prevalece, a ponto de haver cristãos que ainda não entenderam a importância dos livros veterotestamentários. Nunca leram estes a Epístola aos Hebreus? Não sabem que tudo, segundo Romanos 15.4, foi escrito para nosso ensino?

Neste artigo, discorrei brevemente sobre o sacerdócio e veremos como há lições valiosas na primeira parte da Bíblia. Para ser um sacerdote, segundo a Lei de Moisés, além de israelita, da tribo de Levi e da linhagem de Arão, era preciso ser praticamente perfeito, fisicamente. Nenhum de nós, hoje, poderia ser um sacerdote, se essas mesmas exigências continuassem vigendo. Mas o Senhor nos fez reis e sacerdotes (Ap 5.8-10) e podemos entrar no “Santo dos santos” pelo sangue de Jesus (Hb 10.19,20). Entretanto, exige-se de nós, participantes do sacerdócio de Cristo, que atentemos para as mesmas características do sacerdócio levítico, espiritualmente falando. Consideremos agora o texto de Levítico 21.

O sacerdote não pode ter problema com a sua visão (Lv 21.18,20). Nos tempos do Antigo Testamento, o sacerdote não podia ser cego nem ter belida (névoa, mancha) no olho. Isso nos ensina que não podemos perder a visão espiritual (Ap 3.17,18). Precisamos ter cuidado com a cegueira total, mas também com uma forma parcial de cegueira ou vista embaçada, ilustrada pela belida no olho, a fim de que tenhamos discernimento espiritual (2Pe 1.5-9; 1Co 2.15; Is 5.20).

O sacerdote não pode ter problema com o seu andar (Lv 21.18-20). Espiritualmente falando, o andar alude à santificação (Gn 17.1; 2Co 5.7; Ef 2.10). Assim como os sacerdotes dos tempos do Antigo Testamento, não podemos ser “coxos”, isto é, sem firmeza nas pernas, pois quem coxeia entre dois pensamentos, além de oscilar na fé, vivendo de altos e baixos, fica para trás em sua caminhada (1Rs 18.21; Tg 4.8; Hb 12.13). Os sacerdotes não podiam ter pernas muito compridas, diferentes uma da outra, nem pé quebrado. Isso aponta para desequilíbrio no testemunho (Is 30.21) e para um acidente, uma fratura “espiritual”, a qual impede o salvo de pisar e calcar (Lc 10.19; Sl 91.13). Finalmente, eles não podiam ser corcovados. Fazendo uma aplicação espiritual, há obreiros que só olham para baixo, como se fossem corcundas (Mt 6.19-21; 1Tm 6.9,10). Pensemos nas coisas de cima (Cl 3.1,2).

O sacerdote não pode ter problema com o seu olfato (Lv 21.18). Nos tempos de Arão, quem quisesse ser um sacerdote, além de levita e da família desse sacerdote, não podia ter nariz extremamente chato, uma deformidade física que poderia impedir a pessoa até de perceber determinados odores. O olfato ilustra o nosso discernimento (1Co 2.15). Por que o nariz está junto à boca? Para identificarmos o que estamos para comer. O servo do Senhor que estuda a Palavra de Deus e tem comunhão com o Espírito Santo não come qualquer “comida”. Ele sabe identificar, pelo “olfato”, o “leite racional, não falsificado” (1Pe 2.2) e o “mantimento sólido” (Hb 5.14).

O sacerdote não pode ter problema com as suas mãos (Lv 21.18,19). Naquele tempo, um sacerdote não podia ter um braço mais comprido que o outro, o que representa o desequilíbrio no serviço para Deus. Ele também não podia ter mão quebrada, o que fala de ociosidade ou inatividade. Que tenhamos a mão aberta para realizar a obra do Senhor, em todos os sentidos (1Tm 2.8; 2Co 9.1-5).

O sacerdote não pode ter pequena estatura (Lv 21.20). Aqui vemos que o sacerdote não podia ser anão, cuja característica marcante é ter a cabeça maior que o corpo. Isso nos ensina que nosso crescimento deve ser equilibrado, na graça e no conhecimento do Senhor Jesus (2Pe 3.18; Ec 7.16,17; Pv 4.27), para que evitemos os extremos à direita (fanatismo, misticismo, ignorância) ou à esquerda (formalismo, academicismo, mecanicismo).

O sacerdote precisa ter cuidado com a sua pele (Lv 21.20). Nos tempos veterotestamentários, o sacerdote não podia ter sarna, dermatose que se propaga por meio de contato, vestes, roupa de cama etc. Isso ilustra a condição do murmurador, queixoso, reclamador crônico, já que a murmuração, qual sarna, é altamente contagiosa (Jd v. 16). Além disso, o sacerdote não podia ter impigens, erupções da pele em círculos concêntricos e elevados, altamente transmissíveis. Como se sabe, os agentes causadores desses males se alojam em colônias subcutâneas, embaixo da pele. Às vezes, dá até a impressão de que eles desapareceram, para logo depois reaparecerem em outros lugares do corpo. Espiritualmente falando, a causa dessas “dermatoses” são os pecados ocultos, não confessados, no íntimo da pessoa (Pv 28.13). Não por caso, o apóstolo Paulo afirmou que os “pecados de alguns homens são manifestos, precedendo o juízo; e em alguns manifestam-se depois” (1Tm 5.24).

O sacerdote não pode ter dificuldade para gerar filhos (Lv 21.20). Se tudo quanto foi escrito a respeito do sacerdócio levítico pode nos transmitir ensinamentos, como explicar o fato de que o sacerdote não podia ter “testículo quebrado”? Trata-se de uma referência à incapacidade de gerar filhos, o que impediria a continuidade da linhagem sacerdotal. No nosso caso, devemos gerar filhos na fé, cumprindo a Grande Comissão (Mc 16.15; Mt 28.19; At 1.8). Deus não conta com sacerdotes estéreis. Por isso, Paulo disse aos crentes de Corinto: “eu, pelo evangelho, vos gerei em Jesus Cristo” (1 Co 4.15). Que disseminemos a Palavra que gera vida (1Pe 1.3,23). Trabalhemos!

Ciro Sanches Zibordi

Fonte:: CPAD NEWS

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