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Amizades são para sempre?

Por Moisés C. Oliveira

Em todo o tempo ama o amigo (…). Provérbios 17:17

A possibilidade de nos decepcionarmos com uma amizade, não é motivo para não acreditarmos nela. Se nós, como cristãos, temos a confiança que Cristo jamais vai nos decepcionar; enquanto vivemos nessa terra, temos a obrigação de tornar o convívio com o semelhante melhor, no que depender de cada um (Rm 12:18). Não dá para vivermos contando com o erro do próximo. Enquanto aguardamos sua vinda, temos a oportunidade de buscar e praticar a amizade.

Amizade não é tema corriqueiro ou de pouca importância. A própria Bíblia Sagrada está recheada de passagens que elogiam e estimulam a amizade. Foi tema de preocupação e cuidado das mais brilhantes mentes que pisaram nessa terra, portanto fórmulas simplistas, frases feitas pouco ajudam no seu entendimento. Desde a antiguidade, na formação ainda da cultura ocidental, o debate sobre a amizade sempre ocupou lugar de destaque. Tratá-la como coisa menor nos dias atuais só demonstra ignorância do assunto. A depender de como a encaramos, é a forma como ela se manifestará em nossos relacionamentos.

Pensadores da Grécia antiga, sábios romanos, Agostinho, para citar alguns, debateram o assunto e deixaram riquíssimas obras que permanecem ao longo do tempo, lançando luz sobre assunto tão pouco e tão superficialmente discutido atualmente; além é claro da Bíblia e seus exemplos que o cristão sempre deveria ter à mão.

Numa sociedade que estimula cada vez mais o individualismo, a competição indiscriminada para ascender na carreira ou no ministério, a egolatria latente, a era dos “selfies”; não é de se estranhar, que o valor de uma amizade se resuma a clichês, na qual a expectativa da duração ou não, dela, dependa sempre do outro e não de si mesmo.

Há uma certa confusão com a forma muito comum que se aborda a amizade hoje em dia que é restringi-la, ao seu aspecto negativo. Principalmente naquele ponto quando há alguma decepção de uma das partes, o que acaba por dar espaço àqueles chavões, ou frases prontas como: “se teu amigo te decepcionou, Deus não te decepciona”. Isso é uma verdade, mas é preciso lançar mão de uma visão mais abrangente sobre o assunto de forma a não simplificá-lo e menosprezar uma das coisas mais importantes que podemos experimentar como seres criados a imagem e semelhança de Deus que é uma verdadeira amizade nessa vida. Além do mais, o fato dEle não nos decepcionar, não é no sentido que Ele seja nosso serviçal, sempre pronto a atender nossos anseios e manias de forma indiscriminada, sem critério algum. A forma que a Sua fidelidade está vinculada a nós é através da fidelidade à Sua própria Palavra.

Frases como essa, vistas de uma forma apressada e desarrazoada, levam a um certo conformismo e uma apatia, muito comum em nossos dias, de tal maneira que a expectativa de uma traição, leva a pessoa a não se dedicar a amizade nenhuma, já que há o risco imaginário de decepcionar-se. Ninguém compra um automóvel com a expectativa de morrer num acidente, embora as estatísticas indiquem certa probabilidade. Assim, deveria ser o raciocínio que guiasse o cultivo de uma amizade, a saber, não esperar o pior, mas o melhor. Alias, esse é o pensamento de Cícero – mestre da prosa latina – que já criticava tal raciocínio, ao exemplificar que aqueles que “amavam os amigos como se fossem odiá-los amanhã”, cometiam tolice, pois não tinha cabimento cultivar algo com expectativa do mal, sobretudo por conta de estar embutida nessa ideia, uma espécie de resignação estóica, eximir-se de responsabilidade e colocar toda a expectativa do bem agir no outro e não em si.

Um proveito que se tira da amizade é justamente a esperança. Quando tudo der errado, temos a Deus e nos resta o amigo. Claro que nossa suma esperança deve estar em Cristo e na sua Palavra, mas são os homens nessa terra que tornam-se instrumentos para que o amor e a vontade Dele realizem-se em nossas vidas. Enquanto não subimos com Ele para morar no céu temos aqui a oportunidade de sermos bons amigos para aqueles que nos cercam.

Outro exemplo muito difundido no meio evangélico é sobre os amigos de Jesus. Algumas passagens do Novo Testamento mostram Jesus escolhendo Pedro, Tiago e João para acompanharem-no em algumas situações. Dai se tira todo tipo de conclusão que justifique limitar o número de amigos, de passagens que sequer mencionam a palavra amigo, não passando muitas vezes de conjecturas. Quantidade nunca foi abordada nem esteve em pauta por nenhum sábio que se preocupou com o assunto, isso é necessidade da sociedade pós-moderna. A quantidade, hoje está muito mais ligada às atitudes daqueles que restringem seu círculo de amizades a seu bel prazer e precisam apresentar uma justificativa racional para não ter que dedicar seu preciosíssimo tempo com quem deveriam, por ofício, muitas vezes. Um líder que pregue isso, nas entrelinhas passa essa mensagem aos fiéis: “já tenho meus amigos e não preciso, nem tenho disposição para investir em novos, principalmente se não houver vantagem nisso”. Fato é, que não passa de exegese capenga e frágil, concluir e delimitar número de amigos, usando o Evangelho. Ninguém quer morrer por outro, seja inimigo ou amigo, como Ele o fez, só querem utilizar a Palavra de Deus da forma que melhor convém. Além do que, essa interpretação encontra lastro nas sociedades e nos ensinos herméticos. Sempre haverão os mais próximos, mas fazer disso uma regra que iniba a aproximação ou justifique a displicência no trato com o próximo, é outra coisa; é mudar o foco e sentido da palavra amizade.

A excelência da amizade

Viver sem um amigo para compartilhar a mútua benevolência seria uma vida insuportável. Animais de estimação não podem substituir um ouvido amigo, jamais. Um dos aspectos negativos que os poderosos se queixam é a solidão que o poder provoca, o isolamento que ele traz consigo, demonstrando que mesmo com a autoridade e poder para fazer acontecer, a amizade não se dobra diante disso, é inalcançável mesmo pelo poder, de forma que algo mais forte que o poder é que a atrai e a mantém; aquele doce vínculo embalado pelo carinho de um amigo.

Duração de uma amizade

Certo é que o costume e as maneiras dos homens mudam com o tempo. Com as adversidades, vem a maturidade e pode acontecer de um ou outro não acompanhar esse desenvolvimento e gerar distanciamento e esfriamento da amizade.

Dizem que as melhores amizades são as da infância. Permanecem congeladas no tempo e na memória, muitas vezes preservadas por uma separação imposta pela vida, pois, se levadas adiante correriam sério risco de cederem diante das mesmas aspirações, do mesmo emprego, da mesma noiva e aquilo mais que buscamos em vida.

A amizade pode mais facilmente ser encontrada naqueles que amam a Deus. É da natureza do cristão praticar o bem, e junto com essa atitude, cultivar amizades é algo muito natural. Se atualmente esse ponto do cristianismo não vem sendo praticado, é outro assunto. Não coexistem as inimizades e o amor a Deus, ambos são excludentes entre si; quem pratica um não pratica o outro. “Pois quem não ama a seu irmão, ao qual viu, como pode amar a Deus, a quem não viu?” (1 João 4:20).

Manter a amizade

Uma forma de manter amizades é não admitir desonestidade. Transparência no trato com o amigo, franqueza quando for necessária uma advertência e ouvidos atentos para ouvir. Um bom amigo, certamente deveria confiar na autoridade que a advertência de um amigo carrega em si. Deixar de empreender uma ação honesta sob pretexto de manter uma amizade na verdade é um contrassenso, pois nesse caso nós seríamos o mal amigo para o amigo.

Agir com retidão sob qualquer circunstância é dever do cristão e a felicidade do amigo deveria alegrar nosso coração. Não podemos renunciar a uma amizade por algum aborrecimento que possa advir de nosso amigo, assim como não renunciamos das consequências e angústias que por vezes possam nos trazer a prática do Evangelho.

Se a honestidade é uma forma de manter uma amizade duradoura, a forma como ela é demonstrada ao amigo também é importante. Palavra de Deus diz: “A resposta branda desvia o furor, mas a palavra dura suscita a ira” (Provérbios 15:1). Ninguém, muito menos um amigo merece ter sua falha escancarada sem nenhum respeito, de forma leviana e acintosa. A melhor forma de ser honesto nessas horas, é pedindo direção de Deus na Palavra e em oração, para que o amigo seja canal de benção na vida do outro amigo e mantenham a amizade fortalecida ao longo do tempo.

Como nascem as amizades

Porventura andarão dois juntos, se não estiverem de acordo?” (Amós 3:3). Grandes amizades nascem da simpatia que ambos nutrem por determinado assunto ou  pela forma como encaram a vida. Como poderia haver amizade entre um que tem poder e autoridade e um que busca honra e glória? As chances disso prosperar seria só as custas de desfaçatez, falsidade e interesse.

A distância ou a proximidade também determinam a amizade. São inúmeras as demonstrações de verdadeiras amizades daqueles que conviveram durante algum tempo muito próximos, seja num quartel, por conta do período do alistamento militar, sejam atletas em competição, sejam alunos no período de faculdade ou algo assim; muitas são as formas de amizades duradouras que nasceram por conta da circunstância que acabou por colocar pessoas improváveis juntas e culminou em grandes amizades. Certo é, que amizade está muito ligada a proximidade, assim como a distância provoca seu esfriamento.

Amizades novas e amizades velhas

Pode causar embaraço quando temos que decidir por uma ou outra amizade, sendo uma velha e outra nova. Se essa traz consigo a esperança e prenuncia tal como boa árvore, bons frutos, contudo preservar e manter o lugar de honra de uma velha amizade tem seu valor. Um velho amigo nunca nos aborrece com sua presença, pois há espaço para solicitar livremente, sem melindres, momentos de solidão, bem como o desejo da sua presença quando se fizer necessário.

Contudo, se uma nova amizade nos afasta de velhos amigos, algo aí vai mal. Amizades somam e acrescentam; solidificam e estreitam os laços. Por respeito ao velho amigo era bom que se fizesse tal exame e repudiasse algo que destruísse tal amizade.

Palavras finais

Deus nos dá a oportunidade de cultivarmos amizades que nos complementem na prática da sua Palavra e não naquelas que sejam cúmplices nos desvios da Sua vontade. O amor à Palavra de Deus e a justiça, em comum, podem estabelecer bases para uma sólida e duradoura amizade. O ímpio, deveria ser confrontado pelo modo de agir e viver do cristão para poder participar daquilo que seu modo de vida jamais vai oferecer.

Se não temos encontrado pessoas de confiança, com quem possamos compartilhar de uma sólida e frutífera amizade, sejamos nós, essas pessoas hoje em falta, que despertem nos outros, vontade, disposição e confiança em estabelecer amizades e cultivá-las. “O homem de muitos amigos deve mostrar-se amigável, mas há um amigo mais chegado do que um irmão.” (Provérbios 18:24).

Fonte: Gospel Prime

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