Maldição hereditária: uma análise teológica

Introdução

Não são poucos os grupos evangélicos que creem na chamada “maldição hereditária”.  A ideia é a seguinte: os pais têm o poder de amaldiçoar os filhos, sejam através de suas palavras ou de suas atitudes pecaminosas, e os pecados dos pais são inevitavelmente herdados pelos filhos. Associada a esta ideia, está a crença na quebra de maldições: é preciso repreender o “espírito da prostituição”, o “espírito do adultério”, o “espírito homicida”, o “espírito da pobreza material”, etc. Para que as maldições de nossos ancestrais sejam quebradas, é preciso repreendê-las com palavras de fé.

O objetivo do presente estudo é analisar o conceito de maldição hereditária, tecendo algumas observações a respeito das passagens bíblicas normalmente utilizadas para fundamentar essa doutrina. Também observaremos algumas passagens bíblicas que nitidamente contradizem tal conceito. Não almejamos, com isso, despeitar as igrejas evangélicas que creem na maldição hereditária. Reconhecemos que nossas diferenças teológicas não podem impedir o respeito mútuo e o amor fraternal.

O conceito de “maldição hereditária” no cenário evangélico

No cenário teológico brasileiro, o conceito de maldição hereditária foi amplamente popularizado pelo livro Bênção e Maldição, de Jorge Linhares[1]. Há outros livros e materiais, mas nos centraremos em Benção e Maldição, por ter sido escrito por um dos principais expoentes dessa doutrina.

Segundo Jorge Linhares, a maldição “é a autorização dada ao diabo por alguém que exerce autoridade sobre outrem, para causar dano à vida do amaldiçoado… A maldição é a prova mais contundente do poder que têm as palavras.”[2]

As palavras tem o poder de determinar o comportamento de outras pessoas. Linhares relata que um rapaz se tornou homossexual porque seu pai o amaldiçoou; a maldição foi chamar o filho de “mulherzinha”.[3]

Supostamente existe uma “cadeia de maldição” transmitida hereditariamente, e que precisa ser quebrada num ritual de libertação.

Todo o argumento de Linhares é construído a partir de experiências, seguindo o método indutivo, mas elaborado pela perigosa lógica do “depois disso, logo, por causa disso”. Esse tipo de argumentação é muito comum, no meio popular e religioso.[4] Exemplo: se tomei café, e logo depois sofro uma dor de cabeça, a causa da dor é o café; se passo diante de um gato preto, e logo depois tropeço, a causa do tropeço foi a má sorte produzida pelo felino; se passo debaixo de uma escada, e sofro um acidente, a causa do acidente foi o passar debaixo da escada; se fico doente, e não estou indo à igreja, a causa da doença é minha ausência aos cultos. Mas, muitos e muitos passam diante de um gato preto e debaixo de uma escada, e nada lhes acontece; muitos são completamente displicentes em relação às atividades da igreja, e não ficam doentes. Lembro-me aqui da fábula relatada por Rubens Alves: um agricultor achava que o sol nasce porque o galo canta, afinal, todos os dias depois do canto do galo, o sol nasce; mas um dia o galo morreu, e o sol continuou a nascer.

É possível que um rapaz se torne homossexual porque seu pai o chamava de “mulherzinha”. É possível que um adulto seja preguiçoso porque, quando criança, seus pais o chamavam de vagabundo. Mas isso não tem nada a ver com maldição. É o efeito natural que as palavras podem produzir. Além disto, é preciso considerar que muitas crianças sofrem de violência verbal quando crianças (e até mesmo violência física), mas quando adultas, tornam-se pessoas de bom comportamento, trabalhadoras e honestas.

Jorge Linhares crê que a hereditariedade espiritual é o que determina comportamentos. Por exemplo, o alcoolismo: “a história do filho repete a do pai; o avô era alcoólatra e o bisavô também.”[5] No entanto, há muitas pessoas que não são alcoólatras, ainda que seus pais sejam; e há tantos alcoólatras cujos pais nunca se embriagaram.

Outro problema é atribuir às palavras certo poder mágico. Concordo com o autor, quando diz que “As palavras têm o poder de encorajar ou abater as pessoas”[6]. O problema é afirmar que “nossas palavras podem alimentar ou anular a ação de Satanás”[7]. Linhares diz o seguinte: “Prognósticos negativos são responsáveis por desvios sensíveis no curso da vida de muitas pessoas, levando-as a viver completamente fora dos propósitos de Deus.”[8]Por outro lado: “Palavras positivas, amorosas, de fé, de confiança em Deus, liberam o poder divino para desfazer a opressão, pois Jesus veio para ‘destruir as obras do diabo (1Jo 3.8).”[9] Encontramos aqui a crença na “confissão positiva”. Mas o próprio autor cita 1Jo 3.8, onde se diz que Jesus destruiu as “obras do diabo”.  Portanto, não são as palavras positivas que destroem as “obras do diabo”, mas sim o Filho de Deus.

O conceito de “confissão positiva” também pode ser observado nessa experiência narrada por Linhares: “Na frente de minha casa havia nascido um pé de abóbora entre pedras de construção. Então declarei com certo desdém: ‘Eu te abençôo, ó pé de abóbora, e vamos ver o que acontece’. Meses depois havia abóboras em profusão, e de bom tamanho. Conclusão: ‘funciona até com abóboras’.”[10]. Isaltino Gomes responde: “Ora, se assim é, estas pessoas com palavras mágicas podem eliminar a fome do país.”[11] Bastariam algumas palavras, e todas as crises do nosso país seriam resolvidas.

Jorge Linhares também crê que as maldições precisam ser quebradas. Ele relata que comprou um carro e atropelou três animais em cada uma das viagens que realizou. Na primeira viagem, atropelou um cachorro, noutra um coelho e na terceira um pássaro. Então o Espírito Santo lhe disse o seguinte: “Você já repreendeu as maldições que porventura possam estar sobre esse carro? Não sabe que pessoas amaldiçoadas e infiéis participaram de seu projeto e fabricação? Não percebeu que em tantos anos, desde que você aprendeu sobre essa questão de bênção e maldição, você não costumava atropelar animais; e nem com outro carro? Esse é o primeiro”.[12]

No meu caso, já tive vários carros, não quebrei nenhuma maldição sobre eles, e somente uma vez acidentalmente atropelei um cachorro. Para evitar acidentes, é bem mais recomendável dirigir com prudência e periodicamente fazer a manutenção do carro do que quebrar maldições. Se não procedermos com prudência, os acidentes ocorrerão, com ou sem a quebra de maldições.

Até aqui, analisamos o conceito de maldição hereditária, e já apontamos algumas de suas deficiências. Não usamos as Escrituras, ainda. A partir de um pouco de raciocínio lógico, pudemos notar as falhas desse conceito.

Mas, afinal, a doutrina da maldição hereditária pode ser solidamente respaldada nas Escrituras? Vejamos.

 A maldição no Antigo Testamento

 Gênesis 9.25-26:

disse: “Maldito seja Canaã! Escravo de escravos será para os seus irmãos”.

Disse ainda: “Bendito seja o Senhor, o Deus de Sem! Seja Canaã seu escravo.

Gênesis 9.25-27 narra a maldição de Noé sobre seu filho Cam. Então, surge uma questão: os pais tem poder para amaldiçoar os filhos?

Três observações importantes a respeito dessa passagem bíblica:

  1. Encontramos aqui o conceito fortemente presente no Antigo Testamento: a solidariedade corporativa.[13] Todos aqueles que se originaram de um ancestral comum recebiam os méritos (bênção) e os deméritos (maldição) desse ancestral comum. Cam não honrou seu pai (veja Êx 20.12), por isso seus descendentes (canaanitas) foram amaldiçoados.
  2. Para a interpretação desse texto e de todos os demais textos do Antigo Testamento que falam sobre maldição, é preciso considerá-los como parte de um estágio específico da revelação de Deus no contexto da história da salvação. A história da salvação e o processo da revelação divina atingiram o seu ápice com Cristo (Hb 1.1). Portanto, não é o Antigo Testamento que interpreta o Novo Testamento, mas é o Novo Testamento que interpreta o Antigo Testamento. Além disto, não temos nenhuma passagem do Novo Testamento (nem do Antigo Testamento!) que autoriza os pais a amaldiçoarem os filhos. Ao que parece, a maldição de Noé sobre Cam é um caso único na Bíblia. De acordo com uma das regras fundamentais da hermenêutica (interpretação bíblica), não podemos elaborar uma doutrina sob um único texto bíblico.
  3. Mesmo na antiga aliança, os canaanitas amaldiçoados por Noé poderiam ser livres da maldição. Lembremos que Raabe era canaanita! Através dela, Deus trouxe o Salvador ao mundo (Mt 1.5). Raabe não precisou passar por um ritual de libertação para ser salva. Ela simplesmente creu no Deus de Israel, e sua fé foi suficiente para que ela fosse completamente livre da maldição de Noé.

Êxodo 20.5-6:

Não te prostrarás diante deles nem lhes prestarás culto, porque eu, o Senhor teu Deus, sou Deus zeloso, que castigo os filhos pelos pecados de seus pais até a terceira e quarta geração daqueles que me desprezam, mas trato com bondade até mil gerações aos que me amam e guardam os meus mandamentos.

Esse é um texto corriqueiramente usado para fundamentar a maldição hereditária. No entanto, é preciso compreendê-lo adequadamente. O v.5 precisa ser compreendido à luz do v.6. No v.5, o texto bíblico afirma que Deus castiga “os filhos pelos pecados de seus pais até a terceira e quarta geração”. Mas é preciso considerar também o v.6: “trato com bondade até mil gerações aos que me amam e guardam os meus mandamentos”. Os proponentes da maldição hereditária creem que Deus pode abençoar os filhos dos pais crentes por mil gerações? Certamente não. É claro que não estou dizendo que Deus não abençoa os filhos daqueles que temem ao Senhor. Mas ninguém ousaria dizer que, pelo fato de eu ser crente fiel, as próximas mil gerações de minha família serão abençoadas.

É preciso observar que o texto apresenta uma linguagem figurada. No v.6, lemos uma hipérbole, uma figura que expressa exagero. O sentido do v.6 é esse: Deus tem grande alegria em abençoar. O v.5 afirma que Deus castiga os pecados dos pais até a “terceira geração”. Comentando a expressão do v.5 (“até a terceira geração”), Isaltino Gomes afirma: “É um idiomatismo hebraico para designar algo intenso e longo e não algo que se perpetua, de pai para filho”.[14] Em linguagem figurada, os v.5-6 dizem o seguinte: Deus pune até a “terceira geração”, mas manifesta seu amor até “mil gerações”. O sentido é esse: o prazer de Deus não é punir, mas sim manifestar sua bondade. Portanto, o texto nada fala de maldição hereditária.

Deuteronômio 11.26-28:

Prestem atenção! Hoje estou pondo diante de vocês a bênção e a maldição. Vocês terão bênção, se obedecerem aos mandamentos do Senhor, o seu Deus, que hoje lhes estou dando; mas terão maldição, se desobedecerem aos mandamentos do Senhor, o seu Deus, e se afastarem do caminho que hoje lhes ordeno, para seguir deuses desconhecidos. (NVI)

O Senhor colocou diante de Israel a bênção e a maldição. Bênção, se Israel obedece à lei; maldição, caso desobedece.

Um ponto importante é que as bênçãos e maldições no livro de Deuteronômio estão no contexto da aliança mosaica, que pronunciava diretrizes voltadas especificamente para o Israel que habitaria na Terra Prometida. É o que lemos em Dt 11.31-32:

Vocês estão a ponto de atravessar o Jordão e de tomar posse da terra que o Senhor, o seu Deus, lhes está dando. Quando vocês a tiverem conquistado e estiverem vivendo ali, tenham o cuidado de obedecer a todos os decretos e ordenanças que hoje estou dando a vocês. (NVI)

Outro trecho de Deuteronômio, o capítulo 28, declara que a maldição viria sobre Israel na forma de exílios (v.36, 49-57, 64-65), escravidão (v.32), pestes e enfermidades (v.21-22), secas (v.23-24), carestia (v.38). A razão da maldição é muito bem explicada no v.45: “Todas essas maldições cairão sobre vocês. Elas o perseguirão e o alcançarão até que sejam destruídos, porque não obedeceram ao Senhor, ao seu Deus, nem guardaram os mandamentos e decretos que ele lhes deu.” (NVI).

Tais maldições precisam ser compreendidas no contexto da antiga aliança mosaica. Israel era a nação com quem Deus havia feito uma aliança, e, através dessa nação eleita, Javé iria trazer ao mundo o Messias salvador. No contexto da história da salvação, Deus deu a terra de Canaã como herança para Israel, pois seria ali naquela terra que o Messias haveria de nascer. E, enquanto usufruísse da terra prometida, e como nação teocrática (dirigida pelas leis de Deus), Israel deveria obedecer todas as cláusulas apresentadas na aliança mosaica (incluindo as leis cerimoniais, como os sacrifícios e as festas religiosas).

Entretanto, Cristo estabeleceu a nova aliança, e iniciou um novo estágio dentro da história da salvação. Agora, Deus não tem mais uma aliança com o Israel étnico, mas sim, com a igreja, o novo Israel de Deus. Assim sendo, as maldições de Deuteronômio 28 não são aplicadas à igreja, já que não moramos na terra de Israel, e a terra prometida do Antigo Testamento anunciava tipologicamente os novos céus e a nova terra, conforme lemos em Hebreus 3 – 4. Na nova aliança, Deus não traz secas ou fomes sobre nações, na forma de maldição. Imagine se, nos dias de hoje, Deus amaldiçoasse as nações rebeldes (incluindo as grandes potências europeias que hoje são pós-cristãs) com exílios, secas ou pestes!

Portanto, as maldições de Deuteronômio 28 foram dirigidas especificamente para o Israel teocrático, e, na nova aliança, não se aplicam às nações ou a indivíduos.

O ponto importante a ser notado é que, em caso de desobediência, as maldições viriam sobre Israel, fossem ou não pronunciadas. É verdade que elas seriam pronunciadas (Dt 11.29), mas viriam sobre Israel, mesmo se não fossem ditas. Quer dizer, em última instância, a maldição não era resultado de palavras mágicas proferidas, mas sim da desobediência à torah (“lei).

A responsabilidade individual em Ezequiel 18

Ezequiel 18.1-4 apresenta uma afirmação, feita pelo próprio Deus, que frontalmente desafia o conceito de maldição hereditária:

Esta palavra do Senhor veio a mim: “Que é que vocês querem dizer quando citam este provérbio sobre Israel: ” ‘Os pais comem uvas verdes, e os dentes dos filhos se embotam’? “Juro pela minha vida, palavra do Soberano Senhor, que vocês não citarão mais esse provérbio em Israel. Pois todos me pertencem. Tanto o pai como o filho me pertencem. Aquele que pecar é que morrerá. (NVI)

O v.2 apresenta um provérbio: “’Os pais comem uvas verdes, e os dentes dos filhos se embotam’?”. Deus está perguntando se esse provérbio é verdadeiro. A questão é: os filhos pagam pelos pecados dos pais? Nos v.3 e 4, Deus responde com um veemente não. O Senhor ordena para que esse provérbio não fosse mais citado, pois cada um precisa assumir a responsabilidade pelo pecado: “Aquele que pecar é que morrerá”. (v.4).

Nos versos seguintes, o texto diz que a justiça do pai e a bênção que viria sobre ele não seriam transmitidas aos filhos (v.10-13), nem a injustiça do pai e o juízo que viriam sobre ele seriam transmitidos aos filhos (v.14-18). No v.20, o Senhor declara: “Aquele que pecar é que morrerá. O filho não levará a culpa do pai, nem o pai levará a culpa do filho. A justiça do justo lhe será creditada, e a impiedade do ímpio lhe será cobrada.” (NVI – ênfase acrescentada).

Concordo com Isaltino Gomes: “Colocar a culpa de nossos atos errados e de nossas escolhas mal feitas em palavras ditas por alguém é cair na irresponsabilidade moral. Tomamos decisões, somos responsáveis pelo que fazemos. A culpa é nossa. Quando acertamos, o mérito é nosso.”[15]

A maldição no Novo Testamento

Antes de lermos os textos do Novo Testamento que se referem à maldição, precisamos entender que a obra de Cristo decretou o fim do poder de Satanás. É o que lemos em Mateus 12.29: “Ou como alguém pode entrar na casa do homem forte e levar dali seus bens, sem antes amarrá-lo? Só então poderá roubar a casa dele.” (NVI)

Jesus estava sendo acusado pelos fariseus de expulsar os demônios pelo poder de Belzebu (chefe dos demônios). Respondendo a essa acusação, ele afirma que, na verdade, expulsava os demônios pelo poder do Espírito de Deus (v.28). Então o contexto de Mateus 12.29 nos permite afirmar que o diabo é o “homem forte” (“valente”) que foi amarrado por Cristo, e os “bens” saqueados por Cristo são as vidas resgatadas por Ele. Ou seja, não precisamos amarrar o diabo. Ele já está amarrado por Cristo.

Mas o conceito de maldição hereditária crê que os crentes tem o poder de amarrar o diabo. Marilyn Hickey, ao dizer que as maldições precisam ser quebradas, afirma:

“O diabo é o valente. O que temos de fazer a ele? Amarrá-lo. E depois? Nós lhe tomamos a casa – ou aquela geração! Nós dizemos: Ei, diabo, espere um minuto! A minha geração não pertence a você porque eu o amarrei em Nome de Jesus, e você não vai fazer isso! É isso que fazemos: Rompemos a maldição em Nome de Jesus.”

Vamos amarrar o diabo, se Jesus já o amarrou? A obra de Cristo não foi suficiente?

Na verdade, a obra de Cristo destruiu as obras do diabo (1Jo 3.8), e não é necessária nenhuma quebra de maldição. Vejamos alguns textos do Novo Testamento que fundamentam essa afirmação.

Evangelho de João 8.32:

e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará. (RA).

No v.31, Jesus disse: “Se vós permanecerdes na minha palavra, verdadeiramente sois meus discípulos”. Quer dizer, a “verdade” mencionada no v.32 é a “minha palavra” mencionada no v.31. A verdade é a Palavra de Deus. Além disto, no Evangelho de João, a “verdade” é o próprio Cristo (Jo 14.6). Cristo é a própria “Palavra” encarnada, o “Verbo” de Deus (João 1.1, 14). Ele é a expressão máxima da revelação de Deus. Então, o que Jesus está afirmando em João 8.32 é que aqueles que conhecem a Palavra de Deus (Cristo e Sua Palavra) serão libertos: “e conhecereis a verdade…”.  O verbo “conhecer” é mais do que um conhecimento intelectual (embora inclua isto); trata-se de um conhecimento resultado de uma relação pessoal com Deus (Jo 17.3). Conhecer a Deus significa se relacionar pessoalmente com Ele. Então, o que liberta? Um ritual de libertação? Não! É preciso observar as duas frases. A primeira é: “e conhecereis a verdade”. A segunda é: “e a verdade vos libertará.” Quer dizer, para ser liberto, é preciso conhecer a Cristo e Sua Palavra (primeira frase), e é o próprio Cristo e Sua palavra que trarão libertação (segunda frase).

Gálatas 3.13:

Cristo nos redimiu da maldição da lei quando se tornou maldição em nosso lugar, pois está escrito: “Maldito todo aquele que for pendurado num madeiro”. (NVI).

Paulo diz que aqueles que tentam se salvar pela prática da lei (mandamentos) “estão debaixo de maldição” (v.10). Na verdade, ninguém consegue observar todos os preceitos da lei, e, sendo assim, todos são amaldiçoados por ela. Pois a lei revela o pecado (Rm 7.7). A lei declara que todos nós somos pecadores e merecedores do juízo eterno. Não pode haver pior maldição do que a maldição da lei! No entanto, Cristo se fez maldição em nosso lugar. Ele assumiu o pecado julgado pela lei. E agora somos abençoados por Deus “em Jesus Cristo” (v.14; veja Ef 1.3). Portanto, a libertação da maldição é obra exclusiva de Cristo.

Nota-se, portanto, que a maldição nada tem a ver com palavras que foram proferidas pelos pais aos filhos. Para o apóstolo Paulo, a maldição é a vida escravizada pelo jugo da lei. A pessoa maldita é aquela que tenta se salvar pela obediência à lei. Como ela jamais conseguirá obedecer todos os regulamentos da lei, inevitavelmente ela está condenada.

1João 4.4:

Filhinhos, vocês são de Deus e os venceram, porque aquele que está em vocês é maior do que aquele que está no mundo. (NVI)

O diabo é “aquele que está no mundo”, e Cristo é aquele “que está em vocês” (os salvos). Pelo poder de Cristo, os crentes já venceram o maligno. Somos “guardados em Cristo Jesus” (Jd 1).

Portanto, Satanás não tem poder para causar dano nenhum aos salvos (veja Cl 2.15; Hb 2.14; 1Jo 5.18). Realmente não pode haver nenhuma maldição para aqueles que estão em Cristo Jesus.

 Avaliação do conceito de maldição hereditária

Transcrevemos uma recomendação de Isaltino Gomes: “Utilizar as passagens do Antigo Testamento onde Deus amaldiçoa Israel por quebrar o pacto e transportá-las para nossos dias, é ignorar o ensino neotestamentário.”[16] Não encontramos uma única passagem do Novo Testamento que ensina a maldição hereditária. E mesmo as passagens do Antigo Testamento, quando interpretadas corretamente, não fundamentam essa doutrina.

Em uma avalição final, o que podemos dizer a respeito da maldição hereditária?

  • O conceito de maldição hereditária condiciona, erroneamente, a ação do diabo às palavras

A ação de Satanás não precisa ser autorizada pelas palavras. O diabo age, independente de nossas palavras. O mundo jaz no maligno. (1Jo 5.19; Ef 4.27).

  • O conceito de maldição hereditária diminui o poder da obra de Cristo

De acordo com o Novo Testamento, toda a humanidade está debaixo da maldição do pecado. Não é necessário receber uma maldição dos ancestrais para estar amaldiçoado. Todos estão amaldiçoados, indistintamente. Uma pessoa não se torna maldita porque recebeu palavras de maldição dos pais. Toda pessoa já é maldita, por natureza. Teologicamente a maldição é resultado do pecado (Gn 3). Considerando que todos são pecadores (Sl 51.5; Rm 3.23), segue-se logicamente que todo ser humano nasce amaldiçoado. Então, existe sim maldição hereditária, mas só aquela que herdamos de Adão (veja Rm 5.12).

Por outro lado, a maldição foi totalmente vencida pela obra consumada de Cristo.

A maldição atingiu a raça humana a partir da Queda (Gn 3), e ainda é uma triste realidade no mundo atual. No entanto, chegará o dia em que a maldição será completamente vencida: “Já não haverá maldição nenhuma” (Ap 22.3).

Conclusão

Não existe nenhuma passagem bíblica que evidencia a maldição hereditária. A maldição que existe é aquela de Gênesis 3, resultante do pecado de Adão e Eva, que afetou drasticamente toda a humanidade. Mas a obra de Cristo é suficientemente poderosa para nos livrar de toda maldição. Não é necessária nenhuma quebra de maldição. Basta crer em Cristo.

______________________
[1] Jorge Linhares, Bênção e maldição: As palavras têm o poder muito maior do que você imagina! (2ª edição, Belo Horizonte: Editora Betânia, 1992).

[2] Jorge Linhares, Bênção e maldição, p. 16.

[3] Jorge Linhares, Bênção e maldição, p. 24.

[4] Tal argumento também é utilizado por alguns acadêmicos, para sugerir explicações para fenômenos sociais, políticos e econômicos.

[5] Jorge Linhares, Bênção e maldição, p. 44.

[6] Jorge Linhares, Bênção e maldição, p. 10.

[7] Jorge Linhares, Bênção e maldição, p. 11.

[8] Jorge Linhares, Bênção e maldição, p. 16.

[9] Jorge Linhares, Bênção e maldição, p. 18.

[10] Jorge Linhares, Bênção e maldição, p. 40.

[11] Isaltino Gomes Coelho Filho, Maldição sobre os crentes, outra invenção (texto sem fins comerciais). Disponível em http://www.isaltino.com.br/1999/01/maldicao-sobre-os-crentes-outra-invencao/. Acessado em 03.01.2016.

[12] Jorge Linhares, Bênção e maldição, p. 37.

[13] Para aqueles que almejam entender o conceito de “solidariedade corporativa” no Antigo Testamento, recomendo a leitura do livro de Russel P. Shedd, A solidariedade da raça: o homem em Adão e em Cristo (São Paulo: Vida Nova, 1995).

[14] Isaltino Gomes Coelho Filho, A atualidade dos dez mandamentos, Edição revista (São Paulo, Exudus, 1997), p. 51.

[15] Isaltino Gomes Coelho Filho, Maldição sobre os crentes, outra invenção.

[16] Isaltino Gomes Coelho Filho, Maldição sobre os crentes, outra invenção.

Fonte: Teologia Brasileira

Faça um comentário

Seu endereço de email não será publicado.

×